CAPITAL INICIAL - A VERDADEIRA ( uma das ) CARA DO ROCK BRASILEIRO - UM DEPOIMENTO VERDADEIRO DO MOMENTO ANESTÉSICO QUE VIVE A JUVENTUDE BRASILEIRA PREOCUPADA APENAS COM BEBEDEIRA E MULHERADA, ENQUANTO O BRASIL CONTINUA O MESMO DO INICIO DOS ANOS 80 OU PIOR AINDA NA MAIORIA DOS ASPECTOS. - gazetadopovo.com.br veiculou a materia postada a seguir
Maturidade transviada
Em busca do entusiasmo do início da carreira, Capital Inicial
lança álbum cru e pesado, com direito a punk rock e música de protesto
Publicado em 11/12/2012 | Luigi Poniwass
Alguma
coisa está fora da ordem: enquanto as paradas são dominadas por padres,
sertanejos e pagodeiros e as listas de músicas mais baixadas no país oscilam
entre Paula Fernandes, Adele, Psy e Roberto Carlos (!), quem estufa o peito e
empunha a bandeira da rebeldia e do inconformismo – ainda que a bordo de uma
grande gravadora, a Universal – são os tiozões do Capital Inicial, quase todos
na faixa dos 50 anos de idade. Saturno, o 16.º álbum da banda brasiliense,
lançado oficialmente ontem, é basicamente “fora de moda”: guitarras distorcidas,
baixo, bateria, referências ao cinema e à literatura, indignação e protesto. Ou
seja, um disco de rock – com direito inclusive a punk (“Saquear Brasília”) e
hard (“Apocalipse Agora” e “O Cristo Redentor”).
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“Esse disco é uma reafirmação dos valores que nos levaram
a virar músicos, a querer montar uma banda de rock”, contou por telefone o
baterista Fê Lemos. “Procuramos recuperar o espírito do início dos anos 1980,
quando estávamos ouvindo Sex Pistols, The Clash, Ramones e queríamos causar
algum incômodo. Talvez esse seja o pano de fundo, resgatar aquele rock-and-roll
mais contundente. Queríamos fazer barulho, tocar alto, mas sem deixar de lado a
crítica social, os dilemas existenciais e as letras de protesto, que fizeram
parte do Aborto Elétrico [banda punk na qual Fê tocava com o irmão Flávio e com
Renato Russo] e também estavam nos primeiros discos do Capital.”
Ele constata que, com o passar dos anos, essa raiva se “diluiu”: “A esperança que tínhamos dez anos atrás, quando finalmente um operário chegou ao poder no Brasil, de que novas práticas políticas seriam adotadas, acabou frustrada: os costumes políticos estão tão ruins ou ainda piores do que sempre foram, a educação continua uma lástima, e ainda há muita miséria urbana”, enumera o baterista. “Para completar, como cantava o Cazuza, nossos inimigos continuam no poder. Esse estado das coisas transparece no disco, que é mais melancólico, perturbado, sofrido.”
E não soa esquisito cinquentões bem-estabelecidos vociferando contra os poderosos de Brasília? “Existe uma certa anestesia, as pessoas não estão muito interessadas em pensar, você não vê a juventude indagando ou questionando nada, o que é muito bom para quem está no poder”, teoriza Fê Lemos. “Você vê um país festejando, indo atrás da última dancinha da moda, falando de bebedeira e mulherada, que é o zeitgeist [espírito do tempo] dessa geração. E o rock nacional deste início de século ficou muito bonzinho... o mundo não é tão cor-de- rosa, e esse disco é para os roqueiros não perderem a fé nas bandas de rock brasileiras.”
Reprodução
Lançamento: Saturno. Capital Inicial. Universal Music, R$
24,90
Ele constata que, com o passar dos anos, essa raiva se “diluiu”: “A esperança que tínhamos dez anos atrás, quando finalmente um operário chegou ao poder no Brasil, de que novas práticas políticas seriam adotadas, acabou frustrada: os costumes políticos estão tão ruins ou ainda piores do que sempre foram, a educação continua uma lástima, e ainda há muita miséria urbana”, enumera o baterista. “Para completar, como cantava o Cazuza, nossos inimigos continuam no poder. Esse estado das coisas transparece no disco, que é mais melancólico, perturbado, sofrido.”
E não soa esquisito cinquentões bem-estabelecidos vociferando contra os poderosos de Brasília? “Existe uma certa anestesia, as pessoas não estão muito interessadas em pensar, você não vê a juventude indagando ou questionando nada, o que é muito bom para quem está no poder”, teoriza Fê Lemos. “Você vê um país festejando, indo atrás da última dancinha da moda, falando de bebedeira e mulherada, que é o zeitgeist [espírito do tempo] dessa geração. E o rock nacional deste início de século ficou muito bonzinho... o mundo não é tão cor-de- rosa, e esse disco é para os roqueiros não perderem a fé nas bandas de rock brasileiras.”
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