terça-feira, 17 de março de 2015

Afegãs confrontam tirania familiar - NYTIMES.ORG

Lynsey Addario/The New York TImesRika, que quando menina teve o rosto desfigurado com ácido por sua madrasta | Lynsey Addario/The New York TImes
Rika, que quando menina teve o rosto desfigurado com ácido por sua madrasta
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Afegãs confrontam tirania familiar

 

Faheema estava de pé no pátio do casarão, trêmula, à espera do reencontro com sua família. Respirou fundo e correu para dentro, com a abaia preta esvoaçando ao seu redor, e então caiu no chão, aos pés do tio. As recriminações foram imediatas.
“Como você pôde fazer isso?”, disse o tio. “Você sempre foi tão doce com todos. Como pôde ter feito isso?”
O que Faheema, 21, fez foi fugir da sua casa, no leste do Afeganistão, com o homem que amava. Ela deixou para trás sua numerosa família e o rapaz ao qual havia sido prometida. As palavras do seu tio, apesar de ternas, acarretavam um perigo: Faheema precisaria voltar para casa.
Para uma moça do interior, voltar para casa depois de fugir com um homem equivale a atravessar uma rua movimentada com os olhos vendados —é grande a probabilidade de que ela seja morta.
Faheema (que, como muitos afegãos, usa só um nome) teve sorte, pois foi acolhida em um abrigo para mulheres, um dos cerca de 20 que, na última década, protegeram milhares de afegãs ameaçadas de morte por seus familiares.
Esses abrigos, financiados principalmente por doadores ocidentais, são um dos mais bem-sucedidos —e provocativos— legados da presença ocidental no Afeganistão, por difundir a ideia de que as mulheres são capazes de fazer suas próprias escolhas. Com isso, colocam em xeque o controle dos homens sobre a ordem social. Eis uma ideia revolucionária por aqui —e ainda mais transgressora que a democracia ocidental.
Com a proliferação dos abrigos, cresce também a oposição de homens que veem esses locais como ataques ocidentais à cultura afegã. “Aqui, se alguém [uma mulher] tenta deixar a família, está rompendo a ordem familiar. Isso é contra as leis islâmicas e é considerado uma desgraça”, afirmou o imã Habibullah Hasham, da mesquita Nabi, na zona oeste de Cabul.
A oposição também parte de dentro do governo. Os legisladores quase proibiram os abrigos em 2011. Em 2013, estiveram próximos de revogar uma lei que proíbe a violência contra as mulheres. Acabaram recuando por causa da pressão da União Europeia e dos Estados Unidos.
Agora, com a redução da presença ocidental no Afeganistão, o choque ideológico a respeito do lugar da mulher coloca em risco muitas das conquistas femininas obtidas após a invasão americana de 2001. Muitos afegãos rejeitam as duras restrições às mulheres impostas pelo Taleban, as quais contribuíram para galvanizar o apoio internacional à guerra, mas a noção de que as mulheres devem se submeter aos homens continua amplamente vigente no Afeganistão.
“A maioria das pessoas ainda tem pontos de vista conservadores e tradicionais sobre as mulheres”, disse Manizha Naderi, diretora da ONG Mulheres pelas Mulheres Afegãs, que opera abrigos ou outros programas em 13 províncias.
Muitas mulheres ganharam a liberdade graças aos abrigos, mas outras permanecem num limbo, a salvo das suas famílias durante algum tempo, mas impossibilitadas de sair, pois não são aceitas nem por suas famílias nem pela sociedade. Naderi estima que cerca de 15% das mulheres em seus abrigos não podem sair —nunca.

Exemplo assustador

Acima de tudo, Faheema queria evitar o mesmo destino que coube a Amina, jovem de 18 anos que fugiu em 2013 de sua família, na província de Baghlan, depois de ser informada de que teria de se casar com um homem mais velho.
Amina chegou à capital provincial e foi apanhada pelo serviço de inteligência afegão. Diferentemente do que acontece com outras fugitivas, vistas como mulheres corrompidas e propensas a serem molestadas por policiais, ela não sofreu abusos. Foi levada à sede provincial do Ministério da Mulher.
As autoridades de lá a enviaram para o único abrigo da província. Mas, depois de uma ou duas noites, a família dela apareceu. Os parentes se comprometeram a não fazer mal a Amina se ela voltasse para casa com eles, uma promessa que foi repetida em vídeo após uma reunião com a chefe provincial do ministério, Khadija Yaqeen.
Mas Amina não chegou à sua casa. Nove homens abordaram o veículo, não muito longe do lugar onde ela morava, a retiraram do carro e atiraram nela, segundo o relato da família. A polícia e ativistas dos direitos femininos duvidaram da história. Por que homens armados retirariam uma única moça do carro e atirariam nela? Por que a família não estava exigindo vingança?
A resposta apontava para algo muito mais sinistro do que um ataque fortuito. “Essa é a percepção: uma vez que ela deixa a família, está nas mãos de outros, e eles podem fazer o que quiserem com ela —abusar sexualmente dela—, porque ela deixou o círculo familiar”, disse o imã Hasham, em Cabul. Pelos costumes tribais, o chamado assassinato de honra é a única maneira de erradicar a vergonha.
O chefe de polícia da província de Baghlan acha que o irmão de Amina está envolvido no assassinato, mas disse que houve relatos conflitantes. O Ministério da Mulher não se empenhou para que suspeitos fossem presos.
Yaqeen disse que Amina pediu para ir embora com sua família. “Ninguém tinha batido nela”, afirmou, “então eu não tinha justificativa para mantê-la”.
A funcionária admitiu ter recebido um telefonema de um membro do conselho provincial, mas disse que este se limitou a pedir que ela conversasse com a família da moça, que havia viajado à capital da província para levá-la de volta. Os membros dos conselhos provinciais afegãos costumam ser deferentes aos desejos das famílias poderosas, que num caso como esse se mostram ávidas por limpar sua honra.
Yaqeen disse que Amina tomou a decisão sozinha. “Fizemos tudo de acordo com as regras e regulamentos”, insistiu ela. “Esse é um problema da sociedade.”

Confronto familiar

Faheema tinha certeza de que sua família não iria poupá-la se ela deixasse o abrigo e voltasse para casa. “Tive um problema com o meu pai”, contou. “Ele me prometeu ao filho do meu tio, e eu não estava feliz de me casar com ele, então me casei com outro homem.”
Seu pai lhe avisou que havia comprado uma arma. “Se eu encontrar vocês, eu mato os dois”, disse ele, antes de Faheema fugir.
Faheema entende que está sendo ameaçada por sua própria família. Isso é muitas vezes o primeiro passo para conseguir se salvar.
Diferentemente do que acontece no Ministério da Mulher em Baghlan, onde Amina teve apenas um encontro com sua família antes de ser devolvida, o Mulheres pelas Mulheres Afegãs exige várias sessões com a moça, sua família e um mediador antes de ela ser autorizada a voltar para casa. Se a equipe não estiver convencida de que a jovem estará segura, a mantêm no abrigo enquanto julgarem necessário.
A terceira sessão de Faheema com sua família envolveu sua mãe, uma irmã mais nova, um irmão mais novo e o irmão do noivo desprezado, que já havia estado num encontro anterior. Houve gritaria e situações de quase violência física. “Minha filha quer ir com a gente”, disse a mãe. “O pai dela está no hospital agora.”
A mãe se voltou para Faheema e disse: “Vamos divorciar você desse sujeito”, referindo-se ao homem com quem Faheema fugiu. O irmão do noivo e a mãe dela disseram que a apoiariam se ela quisesse se casar com outra pessoa.
Nuria Kohistan, a mediadora, comentou em voz baixa: “Estão dizendo essas coisas, mas assim que conseguirem a custódia dela vão matá-la”.
Quando ficou evidente que o abrigo não liberaria Faheema, a mãe dela tentou oferecer um suborno. Então ela se voltou para a filha, quase cuspindo ao falar. “Você conhece o seu pai, conhece o caráter do seu pai”, disse. Agarrando Faheema, a puxou da cadeira. “Ele vai me matar. Você pode ir até o meu túmulo amanhã.”
Faheema puxou o braço das mãos da mãe e correu para o porão. A mãe foi impedida de entrar, e Faheema se trancou lá dentro e chorou copiosamente.
Voltar para casa, jamais
As mulheres no abrigo de longa permanência se aninham umas às outras no escuro, e com suas vozes tentam espantar os pesadelos. Os tormentos que elas suportaram nas mãos das suas famílias estão inscritos em seus corpos.
Cicatrizes de faca atravessam rostos e pescoços. Agressões com correntes marcam as costas. Algumas mancam por causa de ossos quebrados e nunca devidamente consertados. Várias faces estão corroídas pelo ácido, uma das armas favoritas por aqui.
Há 26 mulheres no abrigo de longa permanência mantido pela Mulheres pelas Mulheres Afegãs em Cabul. Se a família de Faheema prosseguisse com suas ameaças, o abrigo se tornaria o lar dela.
Aqui, a maioria das mulheres sente um alívio profundo. Nenhuma delas é agredida. Há comida suficiente. As tarefas são divididas e, acima de tudo, existem opções —algumas decidem frequentar a escola. Uma tem um emprego como faxineira, outra costura enquanto cuida da filha de seis anos.
É extremamente raro que uma mulher viva sozinha aqui no Afeganistão, por isso a equipe se esforça em ajudar as mulheres a recriar suas famílias quando elas são rejeitadas pelas originais. “Às vezes conseguimos encontrar maridos”, disse Naderi. “Já casamos umas 10 ou 11, mas é difícil.”
Ativistas dos direitos femininos enxergam algumas mudanças. “Atualmente as mulheres estão encontrando uma voz”, disse Soraya Sobrang, da Comissão Independente Afegã de Direitos Humanos. “E elas também querem ter direitos e poder de decisão.”
A batalha entre as tradições e a consciência ainda nova e frágil acerca dos direitos femininos continua. Um comitê governamental investigou os abrigos depois que um programa de televisão os acusou de obrigar mulheres agredidas a se prostituir. A comissão constatou que a maioria dos abrigos era bem administrada.
O resultado significa que o governo não irá fechar as casas de proteção, mas que há pouco apoio da opinião pública para que se gaste dinheiro com elas.
Naderi conta com financiamento do governo americano para cobrir quase 90% do seu orçamento. O restante vem de doadores, principalmente estrangeiros.
As mulheres dentro da casa de passagem compreendem os riscos que as aguardariam do lado de fora. “Não posso ir sozinha a lugar nenhum”, disse Mariam, 22, que escapou de um marido abusivo filiado ao Taleban. “Todo mundo gosta de ter liberdade, mas eu não posso ter a minha.”

Medo inescapável

Faheema afinal pôde deixar o abrigo, com a ajuda de um advogado contratado pela Mulheres pelas Mulheres Afegãs. Um tribunal reconheceu o casamento dela com seu marido, Ajmal, e o procurador-geral determinou que os dois deveriam morar em Cabul.
Mas não se trata exatamente de um final feliz.
Embora estejam apaixonados, vivem aterrorizados pela ideia de serem encurralados por um parente de Faheema que poderia surrá-los ou matá-los. O casal vive na pobreza porque Ajmal precisou fechar a loja que possuía na sua cidade natal, Ghazni, e não pode mais voltar para lá devido ao receio de ser morto.
“Vivemos com medo e nos escondendo”, disse ele. Três vezes por dia, quando ele sai para comprar pão, se flagra olhando nervosamente ao redor para ver se algum parente de Faheema está de tocaia.
Ele se preocupa com sua mãe, viúva, e suas duas irmãs, que ainda moram em Ghazni. Quando tinha uma pequena loja de cosméticos na cidade, contribuía para o sustento da família. Mas, agora, o sustento da família depende totalmente dos parcos rendimentos da mãe dele como costureira.
Mas nada disso enfraqueceu a determinação do casal.
Faheema tentou selar a paz entre as duas famílias, e eles telefonaram para o enfurecido pai dela, no qual imploraram que ele se reunisse com os anciões do clã de Ajmal. Mas seu pai se recusou, dizendo que a única coisa que poderia satisfazê-lo seria se esse outro clã lhe entregasse uma filha que se casasse com seu filho ou com seu sobrinho, em troca de Ajmal ter ficado com Faheema.
Apesar das dificuldades, Faheema espera que suas irmãs e primas tenham a coragem de exigir que suas famílias as consultem antes de prometê-las em casamento. “Minha mensagem ao meu pai é que ele deveria perguntar aos seus filhos antes de tomar qualquer decisão sobre a vida deles”, afirmou Faheema.
Colaboraram Rod Nordland e Jawad Sukhanyar

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